Os acontecimentos ocorridos durante o 53º Encontro Descentralizado da Região Sul exigem um posicionamento político-institucional do CRESS-RS que ultrapasse o mero relato das atividades desenvolvidas e da participação da delegação nesse espaço deliberativo do conjunto CFESS-CRESS. As situações de inacessibilidade e capacitismo vivenciadas por Clarissa Constant, que culminaram em sua renúncia ao cargo de Conselheira e 1ª Secretária do CRESS-RS, não podem ser tratadas como situações isoladas ou restritas ao âmbito do evento.
Nosso posicionamento reconhece as situações de capacitismo e as violências vivenciadas por Clarissa Constant, decorrentes da forma como a organização do CRESS-PR, responsável pela realização do encontro, planejou e conduziu as demandas relacionadas à eliminação das barreiras para a garantia de acessibilidade para as pessoas com deficiência e com mobilidade reduzida que participaram do evento.
Compreendemos que a ausência de planejamento adequado e de medidas efetivas para assegurar a acessibilidade resultou em violações de direitos e evidenciou práticas capacitistas incompatíveis com os princípios ético-políticos que orientam o Conjunto CFESS-CRESS e a defesa intransigente dos direitos humanos.
Reconhecendo, assim, a necessidade de uma autocrítica institucional, envolvendo toda a Região Sul, quanto à falta de resposta coletiva construída em tempo hábil no decorrer do evento, bem como a apresentação de encaminhamentos concretos que contribuam para o fortalecimento de uma perspectiva anticapacitista no âmbito do Conjunto CFESS/CRESS.
Dessa forma, o CRESS-RS reconhece a gravidade das violações ocorridas e, por meio desta Carta Aberta, expressa solidariedade à Clarissa Constant. Reafirmamos o compromisso do CRESS-RS com a defesa da acessibilidade e do enfrentamento ao capacitismo, defesas que são coerentes com os princípios que orientam o Projeto Ético-Político do Serviço Social.
Contextualização
O Encontro Descentralizado da Região Sul ocorreu entre os dias 17 e 19 de julho de 2026. No primeiro dia de atividades, os Conselhos Regionais de Serviço Social da região iniciaram a organização do evento, realizando a distribuição das responsabilidades relacionadas às coordenações de mesas temáticas, relatorias e ao preenchimento dos instrumentos destinados ao registro e encaminhamento das propostas aprovadas ao CFESS.
Ainda no dia 17, foi criado um grupo de comunicação reunindo as pessoas responsáveis pelas coordenações de mesas e relatorias. Entre elas, estava a conselheira Clarissa, designada como uma das coordenadoras do eixo temático de Seguridade Social. Na ocasião, foi informado sobre a realização de uma reunião de alinhamento destinada exclusivamente às pessoas que desempenhariam essas funções, com o objetivo de apresentar a metodologia de condução dos trabalhos. A reunião foi agendada para o dia 18 de julho, às 8 horas, nas dependências do hotel onde acontecia o Encontro Descentralizado.
No dia 18, a reunião teve início em um espaço localizado na cobertura do hotel, acima do auditório principal onde ocorriam as principais mesas temáticas. O acesso ao local era realizado exclusivamente por um lance de escadas, inexistindo rota acessível para pessoas com mobilidade reduzida ou que utilizassem cadeira de rodas.
Enquanto a reunião era iniciada, a conselheira Clarissa informou, por mensagem, que estava a caminho, mas que chegaria com alguns minutos de atraso em razão da demora nos elevadores do hotel. Pouco depois, voltou a comunicar que encontrava dificuldades para localizar o espaço da reunião.
Naquele momento, o CRESS-RS contava com apenas um representante participando da reunião, o qual informou aos presentes que a conselheira Clarissa estava no local do evento e questionou se o espaço destinado para realização da reunião possuía condições adequadas de acessibilidade para garantir sua participação. Na ocasião, também comunicou que a conselheira aguardava orientações que possibilitasse seu acesso à reunião.
Em resposta, a equipe de organização do CRESS-PR, responsável pela realização do evento, informou que, em razões de questões logísticas e da indisponibilidade do espaço inicialmente previsto, que passaram a ser utilizadas para o coffee break, a reunião havia sido transferida, de forma emergencial, para o espaço da cobertura. Diante dessa situação, representantes do CRESS-PR sugeriram que fosse realizada uma nova reunião de alinhamento, considerando que nem todas as pessoas responsáveis pelas coordenações de mesas e relatorias estavam presentes naquele momento e que a alteração do local havia ocorrido sem planejamento prévio. Assim, Clarissa poderia participar desse segundo momento.
Mesmo após ser informado que a conselheira permanecia aguardando na base da escada, impossibilitada de acessar o local da reunião, a atividade prosseguiu normalmente, sem qualquer adaptação ou alteração que garantisse sua participação. Posteriormente, representantes do CRESS-PR dirigiram-se ao encontro de Clarissa para comunicar a proposta de realização de uma nova reunião.
Diante do ocorrido, a conselheira optou por retirar-se da função de coordenação de mesa, compreendendo essa decisão como um posicionamento ético e político coerente
com a luta anticapacitista. Como integrante da equipe de coordenação, sua participação no momento de alinhamento era condição fundamental para o exercício da função que lhe havia sido atribuída.
Na sequência, Clarissa manifestou-se nos grupos de comunicação do evento, afirmando que não concordava com a naturalização de práticas capacitistas, especialmente considerando que o acesso ao espaço da reunião era possível apenas por meio de escadas, sem qualquer alternativa acessível. Durante o Encontro Descentralizado, representantes do CRESS-PR
realizaram uma manifestação pública, breve, reconhecendo que a condução da situação configura uma prática capacitista.
Os acontecimentos vivenciados durante o Encontro Descentralizado produziram profundas consequências institucionais e políticas, culminando, posteriormente, na renúncia da conselheira Clarissa à gestão do CRESS-RS. Trata-se de uma perda produzida pelo capacitismo, não apenas para o Conselho, mas para o conjunto da categoria profissional, que deixa de contar com a contribuição de uma conselheira comprometida com a defesa do Projeto Ético-Político do Serviço Social e com a luta pelos direitos das pessoas com
deficiência.
É diante desses acontecimentos que o CRESS-RS torna pública esta Carta Aberta de Posicionamento, compreendendo que os fatos narrados exigem reflexão, responsabilização institucional e o compromisso coletivo com a construção de práticas efetivamente anticapacitistas em todos os espaços de organização político-organizativas da categoria no conjunto CFESS-CRESS.
Processo de organização do Encontro
Os Encontros Descentralizados do Conjunto CFESS/CRESS são realizados anualmente, cabendo, em cada edição, a um dos Conselhos Regionais a responsabilidade pela organização local e pela articulação da infraestrutura necessária à realização das atividades.
Durante as reuniões preparatórias das quais o CRESS-RS participou, foi explicitamente sinalizada à comissão organizadora a importância de que o evento fosse realizado em espaço que assegurasse condições plenas de acessibilidade para todas as pessoas participantes. Na ocasião, o CRESS-PR, responsável pela organização local do 53º Encontro Descentralizado da Região Sul, realizado em 2026, informou que o hotel escolhido atendia aos requisitos de acessibilidade necessários para a realização das atividades.
Entretanto, as barreiras arquitetônicas e de acessibilidade mostravam-se evidentes desde o acesso externo ao hotel, que apresentava uma rampa com inclinação acentuada, em desacordo com os princípios de acessibilidade universal. Ao longo do evento, verificou-se também, que as dificuldades de acesso não se restringiam apenas à entrada do espaço,
evidenciando que as condições informadas previamente pela organização não correspondiam à realidade vivenciada pelas pessoas participantes com deficiência.
Entretanto, as condições efetivamente encontradas durante o evento revelaram incompatibilidades significativas entre as informações previamente apresentadas e a realidade vivenciada pelas pessoas participantes. As barreiras identificadas demonstraram que as dificuldades de acessibilidade não se restringiram ao episódio da reunião de alinhamento realizada na cobertura do hotel, mas estiveram presentes em diferentes espaços e momentos do Encontro, comprometendo o direito à participação em igualdade de condições.
Barreiras de acessibilidade identificadas
Ao longo do evento, foram observadas diversas barreiras arquitetônicas e organizacionais que evidenciaram inadequações do espaço físico escolhido para sediar o Encontro. O acesso principal ao hotel, por exemplo, era realizado por uma entrada com inclinação. Embora houvesse um elevador destinado à acessibilidade, sua utilização exigia o deslocamento por esse percurso íngreme. Também foram identificadas limitações relacionadas às dimensões dos elevadores, que dificultavam sua utilização, especialmente para pessoas que utilizam equipamentos de mobilidade ou necessitam de apoio para locomoção.
Ainda no dia 17 de julho, durante a realização das atividades preparatórias que antecederam o Encontro Descentralizado (entre elas as reuniões dos Fóruns das Comissões de Orientação e Fiscalização, do ComunicaSul e do Fórum em Defesa da Formação e do Trabalho Profissional), a conselheira Clarissa, integrante da Comissão de Comunicação, participou da reunião do ComunicaSul e enfrentou dificuldades para acessar e deixar o espaço onde a atividade era realizada. Isso ocorreu porque apenas uma das portas de entrada e saída permanecia aberta, reduzindo significativamente a passagem.
Além das barreiras físicas, também foi constatada a ausência de informações e orientações acessíveis sobre a infraestrutura existente no entorno do evento, tais como opções de alimentação acessíveis, rotas de circulação, transporte adaptado e outros serviços de apoio que possibilitassem a participação das pessoas com deficiência em condições de autonomia e segurança.
Esses elementos demonstram que as dificuldades enfrentadas não decorreram de um episódio isolado, mas evidenciam um conjunto de barreiras arquitetônicas, comunicacionais e organizacionais que limitaram o exercício pleno do direito à participação, contrariando os princípios da acessibilidade, da inclusão e da não discriminação que devem orientar todos os espaços institucionais do Conjunto CFESS/CRESS.
Autocrítica institucional
Os acontecimentos vivenciados durante o 53º Encontro Descentralizado da Região Sul também interpelam o CRESS-RS enquanto instituição. Reconhecemos as violências capacitistas que marcaram esse episódio, também somos chamados a refletir sobre nossa própria atuação diante delas.
Uma das perguntas que emergiu desse processo foi: “Onde estivemos e onde precisávamos estar?”, essa indagação sintetiza o exercício de autocrítica que assumimos. Ela nos convoca a analisar não apenas o compromisso da organização do evento, mas também a efetiva responsabilidade coletiva de resposta, diante de uma situação de violação de direitos que exigia posicionamento imediato, articulado e contundente.
Reconhecemos que a resposta institucional coletiva não ocorreu no tempo e na dimensão que a gravidade dos fatos demandava. Embora tenham existido manifestações individuais e iniciativas de diálogo, elas não foram suficientes para produzir, naquele momento, uma resposta política institucional capaz de enfrentar a violência vivenciada por Clarissa Constant e afirmar, de maneira inequívoca, o compromisso do Conjunto com a acessibilidade e o enfrentamento ao capacitismo.
Esse reconhecimento não busca atribuir responsabilidades individuais, mas assumir, enquanto gestão, o compromisso de construir respostas coletivas mais céleres, articuladas e coerentes com os princípios ético-políticos que orientam o Serviço Social.
Também reconhecemos que esse episódio evidencia a necessidade de revisarmos os processos de organização dos espaços políticos do Conjunto CFESS/CRESS. A intensa concentração de atividades, reuniões e deliberações que caracteriza esses encontros, embora decorra da importância das agendas coletivas, não pode servir de justificativa para improvisações que comprometam direitos, fundamentais. A reunião de alinhamento realizada em um espaço inacessível foi resultado de uma decisão organizativa tomada durante o evento, sem o devido planejamento e sem a avaliação de seus impactos sobre a participação das pessoas com deficiência. Esse fato reforça que a acessibilidade precisa deixar de ser compreendida como uma providência pontual e passar a constituir um princípio estruturante de toda a organização institucional.
Essa autocrítica reafirma o compromisso do CRESS-RS de fortalecer uma cultura institucional anticapacitista, na qual a eliminação de barreiras, a participação plena e a defesa intransigente dos direitos das pessoas com deficiência orientem todas as etapas dos processos políticos e organizativos da categoria.
Compromissos e encaminhamentos políticos
O CRESS-RS reafirma seu compromisso com a construção de práticas institucionais efetivamente anticapacitistas e com a defesa intransigente do direito das pessoas com deficiência à participação plena, autônoma e em igualdade de condições em todos os espaços do Conjunto CFESS/CRESS.
Compreendemos que o enfrentamento ao capacitismo exige mais do que o reconhecimento das violações ocorridas. Requer mudanças estruturais, revisão de práticas institucionais e a incorporação permanente da acessibilidade como princípio político, ético e organizativo. Nesse sentido, assumimos o compromisso de defender, nos espaços deliberativos do Conjunto CFESS/CRESS, a implementação de medidas concretas que fortaleçam essa agenda, dentre as quais:
● A elaboração de um protocolo institucional de acessibilidade para todos os eventos promovidos pelo Conjunto CFESS/CRESS, contemplando todas as etapas da organização e execução;
● A adoção da acessibilidade em sua concepção ampliada, garantindo que todas as dimensões da participação institucional (incluindo hospedagem, alimentação, transporte, circulação, comunicação, atividades culturais, reuniões preparatórias e espaços deliberativos), sejam planejadas desde sua origem com base no desenho universal e na eliminação de barreiras;
● A instituição de processos permanentes de formação anticapacitista destinados às gestões eleitas, trabalhadores(as), assessorias e demais sujeitos envolvidos na organização das atividades do Conjunto CFESS/CRESS;
● A incorporação da avaliação das condições de acessibilidade como critério obrigatório para a definição de locais destinados à realização de eventos, reuniões e atividades institucionais, assegurando que nenhuma programação seja organizada em espaços que inviabilizem ou restrinjam a participação de pessoas com deficiência.
Com o assumir destes compromissos, o CRESS-RS reafirma de forma categórica: acessibilidade não é favor, concessão ou benesse contingencial; é direito humano fundamental e pré-requisito ético-político inegociável para o pleno exercício da participação e da cidadania das pessoas com deficiência.
A superação das barreiras atitudinais e institucionais exige rigor ético e responsabilidade coletiva. Tentativas de contornar ou minimizar violações de direitos
por meio de abordagens informais, “conversas de canto” ou arranjos improvisados à margem dos fluxos institucionais não constituem acolhimento. Pelo contrário: ao
invisibilizar o conflito, esvaziar a dimensão política do debate e submeter a pessoa discriminada à exposição e ao constrangimento, tais práticas configuram assédio
moral e violência institucional, métodos incompatíveis com os princípios que regem a nossa profissão.
O compromisso do Serviço Social com a construção de uma nova ordem societária — livre de todas as formas de exploração, opressão e discriminação — não pode ser reduzido a um horizonte retórico, a um fetiche teórico ou a uma ilusão abstrata. A emancipação humana e o anticapacitismo precisam ser operacionalizados diariamente enquanto estratégia de trabalho, método de gestão e práxis concreta dos assistentes sociais em todos os espaços socioocupacionais e político-organizativos.
Que os episódios vivenciados no 53º Encontro Descentralizado da Região Sul ultrapassem o registro da denúncia e se convertam em divisor de águas institucional. O CRESS-RS convoca toda a categoria a enfrentar o capacitismo estrutural com a coragem e a radicalidade que o Projeto Ético-Político nos exige. Nenhum direito a menos. Por um Serviço Social antiliberal e efetivamente anticapacitista!
Gestão “Cress Forte, Categoria Forte: Raízes que Sustentam a Luta!”
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